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Alocação de Recursos: Por Que o Orçamento de 2027 Pode Repetir 2026. Série Estratégia 2027 — Cap.4/6

Série Estratégia 2027 — Capítulo 4 de 6

Os capítulos anteriores mostraram que uma estratégia pode perder força quando não é compreendida ou quando as áreas não conseguem coordenar suas entregas. O quarto capítulo trata de um problema ainda mais concreto: a alocação de recursos. Uma estratégia nova pode ser aprovada pela diretoria e, ainda assim, continuar financiada praticamente como no ano anterior.

É nesse ponto que o orçamento deixa de ser apenas uma peça financeira. Se a estratégia define onde a empresa pretende competir, crescer ou mudar, a alocação de recursos precisa mostrar quais escolhas foram feitas para tornar essa direção possível. Quando o dinheiro continua indo para os mesmos lugares, a organização pode mudar o discurso sem mudar a capacidade real de execução.

Alocação de recursos: o orçamento tende a carregar o passado

Stephen Hall, Dan Lovallo e Reinier Musters analisaram 1.616 empresas americanas entre 1990 e 2005 para entender como o capital era distribuído entre unidades de negócio ao longo do tempo. A correlação média entre o capital recebido por uma unidade em determinado ano e o valor recebido no ano anterior foi de 0,92.

Para aproximadamente um terço das unidades, essa relação foi ainda mais forte: a correlação chegou a 0,99, indicando que a distribuição de capital ficou praticamente igual de um ano para o outro. A conclusão é relevante para qualquer empresa que esteja fechando o orçamento de 2027. Mesmo quando a estratégia muda, o orçamento tende a carregar uma forte memória do passado.

Isso não significa que repetir valores seja sempre um erro. Algumas operações precisam de estabilidade, compromissos plurianuais e capacidade já instalada. O problema aparece quando a repetição acontece por inércia, sem uma discussão explícita sobre quais iniciativas deveriam receber mais, menos ou nenhum recurso diante da nova estratégia.

Mover recursos pode criar valor — mas o horizonte importa

No estudo de Hall, Lovallo e Musters, o terço das empresas que mais realocou capital apresentou, em média, retorno total ao acionista 30% maior por ano do que o terço que menos realocou. O dado é forte, mas precisa ser lido com a ressalva feita pelos próprios autores: em horizontes inferiores a três anos, as empresas que realocaram mais tiveram retornos menores.

Esse contraponto é importante porque evita uma interpretação simplista. Alocação de recursos não é sinônimo de cortar verbas agressivamente ou redesenhar o orçamento a cada ciclo. A evidência apresentada no estudo aponta para uma capacidade consistente de deslocar recursos ao longo do tempo quando a estratégia exige, e não para movimentos bruscos motivados apenas pela pressão de um exercício.

Para a diretoria, a pergunta útil não é “quanto vamos mudar o orçamento?”, mas “quais escolhas estratégicas justificam uma mudança real na distribuição de recursos?”. Se a estratégia de 2027 estabelece novas prioridades, o orçamento precisa indicar de onde virão as pessoas, o capital, a tecnologia e a capacidade necessários para financiá-las.

O número do ano anterior funciona como âncora

Dan Lovallo e Olivier Sibony descrevem os números do ano anterior como uma âncora implícita e poderosa nas discussões orçamentárias. A referência é confortável: começa-se pelo que já existe, aplica-se um crescimento, uma redução ou alguns ajustes e, a partir daí, negocia-se o novo plano.

Esse processo é eficiente do ponto de vista operacional, mas pode preservar escolhas que já não fazem sentido estratégico. Negócios em declínio continuam consumindo recursos porque sempre consumiram; projetos que perderam prioridade permanecem no orçamento por falta de uma decisão explícita; novas iniciativas recebem apenas a sobra depois que o passado foi protegido.

A pesquisa de Sull e coautores reforça esse ponto por outro ângulo. Oito em cada dez gestores disseram que suas empresas não saíam rápido o suficiente de negócios em declínio nem encerravam a tempo iniciativas que não tinham dado certo. A dificuldade de retirar recursos pode ser tão importante quanto a capacidade de escolher onde investir.

Estratégia nova com orçamento antigo é apenas intenção

No Capítulo 1 desta série, vimos que uma das fontes de perda entre plano e resultado está justamente em recursos que não estão no lugar certo, na hora certa. O orçamento é o momento em que essa discussão deixa de ser abstrata.

Se uma empresa afirma que 2027 será o ano de um novo mercado, mas mantém quase toda a capacidade comercial, operacional e de marketing concentrada no portfólio anterior, a prioridade existe no documento, mas ainda não existe na organização. Da mesma forma, se um projeto deixa de ser estratégico e continua protegido por orçamento, pessoas e atenção executiva, a empresa não realizou uma escolha; apenas adicionou mais uma prioridade à estrutura antiga.

Alocação de recursos exige renúncia. Financiar algo novo normalmente implica reduzir, interromper ou desacelerar outra frente. É justamente essa parte que torna o orçamento uma expressão concreta da estratégia.

Seção prática: 5 perguntas antes de aprovar o orçamento de 2027

  1. Quais prioridades de 2027 recebem mais recursos do que recebiam em 2026 — e por quê?
  2. Quais iniciativas, unidades ou projetos perderão recursos para financiar essas prioridades?
  3. Existe algum negócio em declínio ou projeto sem resultado que permanece protegido apenas porque já estava no orçamento anterior?
  4. As mudanças de alocação foram avaliadas em horizonte compatível com a estratégia, ou estão sendo julgadas apenas pelo resultado de curto prazo?
  5. Se o orçamento fosse construído do zero hoje, a distribuição final seria parecida com a atual?

Essas perguntas não substituem a análise financeira. Elas ajudam a verificar se o orçamento está financiando a estratégia aprovada ou apenas atualizando o histórico.

Perguntas frequentes sobre alocação de recursos

Realocar mais recursos sempre melhora o desempenho?

Não. O estudo citado encontrou melhor desempenho de longo prazo entre as empresas que mais realocaram, mas também observou resultados piores em horizontes inferiores a três anos. A decisão precisa considerar contexto, risco e horizonte estratégico.

Orçamento base zero é a única forma de evitar a inércia?

Não. A questão central é tornar explícitas as escolhas de alocação e revisar criticamente a base anterior. Diferentes métodos podem funcionar desde que a empresa não trate o orçamento passado como uma regra automática para o futuro.

Quer revisar se o orçamento de 2027 realmente financia a estratégia aprovada? Agende uma Conversa Estratégica.

Referências

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SOBRE
Juliano Martins

Consultor, professor e palestrante desde 2018. Com mais de 30 anos de carreira executiva em grandes corporações nacionais e globais, como Grupo Globo, Xerox, Samsung, Sonda IT e Lexmark, Juliano Martins é especialista em Estratégia Avançada de Vendas, com foco em alinhar estratégia, liderança e operação comercial para transformar decisões de alto nível em resultados concretos.

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